Nikoguru

Entendendo o Afeganistão

  • Nikoguru
  • por em 22 de abril de 2021

O novo presidente norte-americano Joe Biden prometeu retirar suas tropas do Afeganistão em um prazo de seis meses, para pôr fim à presença dos Estado Unidos no país 20 anos depois dos ataques de 11 de setembro. O que torna esse país tão estratégico na política externa dos EUA?

Até os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, o Afeganistão era um país quase desconhecido para o público mundial. Sabia-se, que era um país atrasado com extensas plantações de papoula, destruído por guerras civis e conflitos com a antiga União Soviética, que existiam líderes tribais à frente de um regime fundamentalista islâmico.

Considerado o país mais perigoso do mundo, os conflitos tribais foram responsáveis por 80% das mortes de civis em 2011 no Afeganistão. A expectativa de vida é de 44,5 anos e tem a segunda pior taxa de mortalidade infantil do mundo.

Uma breve história

O nome Afeganistão significa “Terra dos Afegãos”, que designa as pessoas pachtuns, o maior grupo étnico do Afeganistão. Problemas internos na região já foram registrados séculos atrás pelo estudioso persa Firishta no século XVI quando visitou Cabul: “Não chame de Coistão (montanhas), mas Afeganistão, pois não há nada lá além dos afegãos e os seus distúrbios”.

Em 1978, em plena Guerra Fria, um golpe levou ao poder no Afeganistão um governo comunista apoiado pela União Soviética (URSS). Como a população não aceitou esse novo governo, a União Soviética ocupou o país no ano seguinte.

Para resistir ao regime socialista, os EUA e Arábia Saudita financiaram e forneceram armas a guerrilheiros fundamentalistas islâmicos, os mujahideen, que combateram os russos e seus apoiadores por 10 anos em uma guerra que devastou o país. Entre esses guerrilheiros, estava o futuro líder da rede Al-Qaeda, o saudita Osama bin Laden.

Mujahideen.

Com a saída dos soviéticos do Afeganistão em 1989, o país entrou em uma grave crise política e uma guerra civil entre as diversas facções dos mujahideen. Em 1992, surgia o Talibã liderado por Mullah Mohammed Omar, formado por sunitas fundamentalistas. De 1994 a 1996, o Talibã se tornou o ator mais importante na guerra civil e ganhou rapidamente o controle do país e da capital.

Talibã batendo em mulheres para uso da burca, em Cabul.

Em 1997, as forças talibãs mudaram o nome do país de Estado Islâmico do Afeganistão para Emirado Islâmico do Afeganistão. Se instaurou um regime fundamentalista islâmico, com banimento das mulheres das maioria das atividades, fim das atividades culturais, forte censura e apoio a organizações terroristas como a Al-Qaeda e seu líder Osama bin Laden – considerado herói pelos talibãs.

11 de setembro: o atentado das torres gêmeas

11 de setembro de 2001 mudou a história do mundo com o ataque por aviões às torres gêmeas de Nova York. Depois dos atentados, o governo norte-americano exigiriu que o Talibã entregasse o líder Al-Qaeda, que havia assumido a autoria dos ataques. Em resposta a recusa, os EUA invadiram o Afeganistão, dando início à chamada Operação Liberdade Duradoura para derrubar o Talibã.

Osama bin Laden (à direita), líder da Al-Qaeda.

Com ajuda americana, a Aliança do Norte (grupos étnicos opositores ao Talibã) tomou a cidade de Mazar-e-Sharif e depois Cabul. O número de soldados americanos chegou a 100 mil no Afeganistão em 2009, durante a gestão de Barack Obama. Atualmente existem forças militares de 42 países ocupando o país, com participação direta da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Soldado americano em montanhas ao norte de Cabul.

Assim como aconteceu com os russos, a invasão não acabou com os ataques dos militantes talibãs. Até hoje, eles ainda tentam tomar o poder. A maioria cruzou a fronteira com o Paquistão e organiza de lá a insurgência, com ataques mais complexos.

O acordo de Bonn e a política do país

Após a ocupação do país em 2001, uma conferência na Alemanha definiu os rumos da reconstrução do país com organizações internacionais e membros da oposição – o que ficou conhecido como Acordo de Bonn.

Após o acordo, o pashtun Hamid Karzai foi escolhido para chefiar um governo transitório. O mesmo líder venceu as primeiras eleições presidenciais em 2004 e foi reeleito em 2009, com denúncias de corrupção e criticado pelos talibãs.

Hamid Karzai.

Em 2014, após um conturbado processo eleitoral, Ashraf Ghani foi eleito e empossado presidente do país

Afeganistão Atual

Com todos essas dificuldades, é de se esperar que o Afeganistão seja um dos países com menor expectativa de vida, maior taxa de mortalidade infantil, pobreza e desigualdade do mundo. Um em cada quatro refugiados do mundo é afegão. A maioria mora no Paquistão e Irã.

Apesar das eleições democráticas, grandes investimentos externos na reconstrução, maior participação feminina na sociedade, ainda há muito o que fazer para tornar mais digna a vida dos 29 milhões de afegãos. Mais de 36% da população vive abaixo da pobreza absoluta. Não há água potável ou saneamento básico, poucos tem eletricidade. O desemprego chega a 35%. Mulheres afegãs podem ser presas ou executadas em caso de adultério, muitas vezes sem nenhuma comprovação.

Cabul atual, depois da reconstrução.

Até hoje o país é considerado o maior produtor de ópio do mundo, segundo dados da ONU de 2017. Mesmo que parte da produção seja utilizada legalmente, 75% da heroína mundial vinham do país, onde, segundo dados da ONU, o mercado do ópio financia 15% das atividades dos talibãs.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.