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Ecossocialismo: o novo anticapitalismo

  • por em 12 de maio de 2021

O presente artigo é fundamentado nas ideias do economista e filósofo francês, Serge Latouche (1940), criador da Teoria do Decrescimento. O termo “decrescimento” foi escolhido, no início do século XXI, para provocar e despertar as consciências. Era preciso sair da religião do crescimento a qualquer preço. A Teoria do Decrescimento objetiva um tipo de ecossocialismo para reagir contra a cultura do usar e jogar, da obsolescência programada, o crédito sem tom, nem som e os abusos que ameaçam o futuro da nossa aldeia global, a Terra.

A crise capitalista

As crises econômicas que tanto abalaram e vão abalar o mundo, vão ter uma companhia: a crise ecológica, social, cultural…, ou seja, uma crise de civilização e antropológica.

No mundo no qual estamos inseridos, o capitalismo é um sistema cujo equilíbrio é como o do ciclista, que nunca pode deixar de pedalar, caso contrário, cai. O capitalismo sempre deve estar em crescimento, caso contrário é a catástrofe. Esta é a lógica perversa do sistema capitalista – e estamos dentro dele – não podemos parar de crescer, precisamos crescer o tempo todo, toda hora.

Essa lógica merece crítica, condenação e mudança.

Decrescimento é a solução

Na contramão dessa perspectiva de crescimento a todo vapor, Serge Latouche defende uma economia/sociedade que produza menos e consuma menos, pois é a única maneira de se frear a destruição do meio ambiente, que ameaça seriamente o futuro da humanidade.

É preciso uma revolução, é fundamental a quebra de paradigmas. A qualidade de vida não pode estar associada ao crescimento desenfreado. Crescimento do PIB (produto interno bruto) não pode ser o único raio x da saúde de um País (e do Mundo). É uma ironia os governos comemorarem tanto o crescimento do PIB e não se importarem pelas gritantes desigualdades sociais que assolam o povo. O sistema foca mais no PIB e muito menos no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Serge Latouche, assim como Marx, o modo capitalista traz a semente da sua própria destruição. Foto de Niccolò Caranti.

O “decrescimento”, proposto por Latouche, não é sinônimo de “crescimento negativo”. Decrescimento significa um reposicionamento acerca do que queremos para nossa vida e a de nossos descendentes. É preciso reavaliar a sociedade de consumo assentada no crescimento devastador dos recursos naturais e, é claro, no consumismo patológico de mercadorias. Compre! Compre! Compre!

O verbo comprar deve ficar num patamar inferior ao verbo viver. É preciso trabalhar menos e ganhar mais, ter mais horas livres para aproveitar a vida, dedicar-se ao lazer, à cultura, à formação pessoal.

A nova Revolução

A questão do trabalho, no sistema capitalista, é curiosa. O trabalho é uma mercadoria. Vendemos e compramos trabalho. Pagamos mais, pagamos menos, recebemos mais e recebemos menos … Tudo depende do valor que o trabalho do indivíduo vale no mercado. Na lei da oferta e da procura, que rege soberana no sistema capitalista, quanto mais trabalhamos, menos valemos como trabalhadores, uma vez que o excesso de trabalho desvaloriza o próprio trabalho.

Menos trabalho significa mais riqueza e bem estar.

Excesso de pão de queijo significa pão de queijo mais barato, é assim com o trabalho humano também.

É necessário trabalhar menos horas para que todos trabalhem, mas, sobretudo, trabalhar menos para viver melhor. Isto é mais importante e mais subversivo.

É preciso refletir sobre isso: vivemos numa sociedade que nos faz toxicodependentes do trabalho. Assim, é fundamental reduzir as horas de trabalho. O trabalho aqui indicado é o trabalho necessário para que possamos ter salário para viver, comprar comida, pagar pela moradia, educação etc. Trabalhando menos, sobrará mais tempo para fazermos outras coisas, tais como viver. Além disso, trabalhando menos, haverá mais trabalho para todos. O desemprego diminui e a desigualdade social também.

Agricultura Ecológica x Agroindústria

Vejamos o caso da agricultura. O decrescimento avalia a agricultura campesina, ecológica e vinculada à permacultura. Esta nova agricultura pode muito bem substituir a agricultura produtivista, predadora e ruinosa para o meio ambiente.

Um nova agricultura ecológica e orgânica.

A permacultura requer mais mão de obra (gera mais empregos) e se opõe ao uso de maquinário pesado e gigantesco que o agronegócio utiliza. Quebrar paradigma significa, na permacultura, o respeito ao ciclo da natureza, a utilização de técnicas mais saudáveis e o uso de mais trabalhadores.

Ecossocialismo, eis a Revolução. Compre esta ideia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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