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Borba Gato, Francisco Franco, Lênin, Stálin e o Muro de Berlim

Fogo em Borba Gato

Uma questão tem sido polêmica nos últimos tempos: vale o gesto de destruir monumentos que representam situações históricas degradantes para determinados grupos sociais?

No dia 24 de julho de 2021, a estátua de Borba Gato foi incendiada. Localizada na zona sul da cidade de São Paulo.  Manuel Borba Gato (1649/1718) foi um bandeirante paulista que atuou no sertão brasileiro na época do descobrimento do ouro, além de ter sido um dos líderes dos paulistas na “Guerra dos Emboabas”, ocorrida entre 1707/1709, quando os paulistas enfrentaram os forasteiros (emboabas) pela disputa da região mineratória. Mas, o que exatamente levaria algum grupo na atualidade a por fogo na estátua do bandeirante?

Estátua de Borba Gato em chamas em São Paulo – Daniel Eduardo/ Twitter/ reprodução

 

Bandeiras paulistas – ambição, escravidão e morte

Os paulistas organizavam tropas-bandeiras que atuavam no sertão brasileiro na época colonial. As bandeiras eram empreendimentos organizados pelos paulistas ditos ”homens bons” (brancos, católicos e proprietários de terras). As “bandeiras de prospecção” buscavam pedras e metais preciosos no sertão bravio, incentivadas pelo sonho do Eldorado e, de tanto procurar, encontraram ouro no final do século XVII nas Minas Gerais.

Bandeirantes: heróis ou vilões?

Havia, também, as “bandeiras de apresamento” que capturavam indígenas para a venda como escravos nas regiões próximas à Capitania de São Paulo. Os jesuítas, que protegiam os nativos,  estavam sempre em conflito com os bandeirantes. O terceiro tipo de bandeira era a de “sertanismo de contrato”, contratada como tropa ou milícia pelas autoridades coloniais para combater tribos hostis ou destruir quilombos. O bandeirante Domingos Jorge Velho (1641/1705), por exemplo, destruiu o Quilombo de Palmares em 1695, a mando da Coroa. No combate, morreu o  líder do Quilombo, Zumbi (1655/1695).

Destruição e História

Retomando a questão da destruição da estátua do bandeirante, verifica-se a possibilidade do ato ser uma forma de repúdio contra situações históricas que se caracterizaram pela violência contra os indígenas e negros na História do Brasil. Nesta perspectiva, a estátua glorifica os algozes dos povos originários (indígenas) e dos africanos escravizados e, na ótica daqueles que perpetraram o incêndio, foi um ato legítimo de ressignificação, ou algo no gênero,  da nossa História.

Remoção da última estátua de um ditador

Deixando por um momento a nossa História, vamos para a Espanha. No início de 2021, na cidade de Melilla, enclave espanhol que fica na costa africana, foi retirada a estátua de Francisco Franco (1892/1975), ditador que implantou o fascismo na Espanha no período de 1939 e 1975. A Assembleia Municipal que deliberou pela remoção do monumento alegou que aquela era a única estátua de um ditador ainda existente em local público na Europa. Sua manutenção, portanto, era anacrônica e uma ofensa à democracia e às vítimas do fascismo.

Lênin, Stálin e o Muro de Berlim

Em novembro de 1989, a partir de um movimento popular pacífico, o Muro de Berlim foi derrubado. Um dos maiores símbolos da Guerra Fria desapareceu por meio de golpes de picareta, marreta e o que mais fosse capaz de destruir aquele monumento abjeto.

Desmonte da estátua de Stalin em Budapeste na Hungria em 1990.

Quando o socialismo real acabou, a partir da década de 1990, tanto na URSS quanto nos seus satélites do Leste Europeu, várias estátuas de Lênin e Stálin foram destruídas ou removidas. Destruir o ícone era o mesmo que repudiar o que ele representou para milhões de pessoas em termos de repressão, sofrimento, intolerância e morte.

“A favela vai descer e não vai ser carnaval”

A polícia paulista identificou e prendeu um suspeito de ter participado do incêndio à estátua de Borba Gato. Era o motorista do caminhão que levou os responsáveis pelo ato que, ainda, estenderam uma faixa com os dizeres ”Revolução Periférica – a favela vai descer e não vai ser carnaval”. O prefeito de São Paulo afirmou que um empresário irá arcar com os custos da restauração da estátua. São as entranhas do nosso País expondo suas vísceras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Geografia

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Diabolic

Comparar Stálin e, principalmente, Lênin, com fascistas é falta de estudo ou falta de caráter.

Abraços.