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A construção do herói nacional

A palavra “herói” significa, no dicionário, o filho de um deus ou uma deusa com um ser humano ou um mortal divinizado após sua morte, um semideus.

O herói está presente na mitologia, na literatura, na religião, nas instituições, nas ideologias, na família, enfim, na vida humana. Heróis são seres que nos orientam, indicam valores e condutas que reúnem coragem, fidelidade, honra e uma gama de comportamentos positivos.

Os gibis estão cheios de heróis que, ao final, sempre vencem os vilões. Alguns heróis são estranhos, pois misturam-se a morcegos, aranhas, gatos, máquinas … Mas, o importante são os valores que estes heróis têm. Em 1941, a Marvel Comics criou o Capitão América, super-herói dos gibis, patriota e inimigo dos nazistas. Veja que interessante: o herói foi criado no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939/1945) e logo foi transformado no símbolo da luta dos norte-americanos contra o nazifascismo. Numa das edições, o Capitão América socava Hitler.

A formação do mito

Os heróis nacionais, podem ser fictícios como o Capitão América, ou reais … como Tiradentes, herói brasileiro. Em 1867, ou seja, 22 anos antes da queda da monarquia, Castro Alves publicou uma peça de teatro – “Gonzaga e a Revolução de Minas” – na qual idealizava Tiradentes, com os versos:

“Ei-lo, o gigante da praça, / O Cristo da multidão!

É Tiradentes quem passa / Deixem passar o Titão”.

Já nos últimos anos do Segundo Reinado, Joaquim José da Silva Xavier surgia como herói na peça do “condoreiro” Castro Alves.

Em 15 de novembro de 1889, D. Pedro II foi derrubado pelo Exército. O nosso monarca reinou por 49 anos e foi destituído do poder por um golpe chefiado pelo “amigo” Deodoro da Fonseca, Marechal do Exército. Em seguida, foi proclamada a República. Aristides Lobo, um dos apoiadores e membros do novo governo, escreveu sobre o golpe de 1889:

“O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada.”

A nascente república brasileira precisava de um herói.

Talvez por isso, foi preciso buscar na História um herói que justificasse a derrubada do velho imperador e a implantação da República. Eis que emerge a figura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Um dos principais  participantes da Inconfidência Mineira (1789), Tiradentes foi transformado em herói nacional.  Por este motivo, o decreto de 1890, transformou o dia 21 de abril em feriado nacional. Neste dia, em 1792, Tiradentes foi enforcado e esquartejado. Seus pedaços espalhados entre o Rio de Janeiro e Ouro Preto, cidade onde ficou a cabeça do réu, exposta em um poste.

Por que Tiradentes?

Mas, por que Tiradentes foi transformado em herói e por que ele foi executado? A Inconfidência ou Conjuração Mineira foi um movimento que pretendia romper o domínio português e  implantar a República. Seus ideais libertários vieram do Iluminismo e da Independência dos Estados Unidos (1776). Entretanto, como afirma o historiador Boris Fausto, os inconfidentes desejavam a independência das Minas Gerais, não exatamente do Brasil como conhecemos hoje. E, muito menos, pretendiam abolir a escravidão.

Retornando ao nosso herói, quem era Tiradentes? Ele foi tropeiro, dentista, minerador e alferes (militar). Ativista político, juntou-se a outros e conspirou contra a Coroa pela independência e pela  República. O movimento foi denunciado e, rapidamente, os suspeitos foram presos e a Devassa foi instituída. Joaquim José, considerado o líder, foi executado. 

O novo Cristo e o povo bestializado

Em 1893, o artista Pedro Américo pintou o quadro “Tiradentes esquartejado”. Ao lado de sua cabeça, um crucifixo. O torso estava com o braço caído à semelhança de Cristo no colo Pietá. A trave da forca e o cadafalso surgiam como uma cruz. É obvio que Pedro Américo procurou associar a imagem de Tiradentes à de Cristo.

Tiradentes esquartejado de Pedro Américo: nascia o mito.

Assim, emergiu o herói. Líder e mártir da Independência e da Republica. E, principalmente, militar. Melhor herói não poderia existir para a causa daqueles que derrubaram D. Pedro II e proclamaram a República. Os versos de Castro Alves e a alegoria de Pedro Américo ajudavam na formulação de um mártir republicano. Herói associado à figura de Cristo, ou seja, um semideus, não é mesmo?

Povo bestializado precisa de heróis assim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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História
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