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A Inquisição Católica – só pedido de perdão não basta.

  • por em 14 de maio de 2021

No ano 2000, o Papa João Paulo II pediu perdão pelos “erros cometidos a serviço da verdade por meio do uso de métodos que não têm relação com a palavra do Senhor.” A declaração papal referia-se às barbaridades cometidas pela Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, instituição da Igreja Católica encarregada de julgar e condenar as pessoas acusadas de crimes contra a religião. Entre as atrocidades inquisitoriais, estavam as torturas, os julgamentos sumários, as conversões compulsórias e as execuções. Em 2004, João Paulo II retomou a questão, numa carta, na qual ampliava o seu pedido de perdão “tanto para os dramas relacionados com a Inquisição quanto para as feridas deixadas na memória [coletiva] depois daquilo”.

A Inquisição e o Horror

A Inquisição foi criada no século XIII, para combater as heresias, que eram as posições contrárias ao que a Igreja Católica pregava. Os hereges poderiam ser qualquer pessoa que discordasse da Igreja ou de seus ensinamentos e, por isso, considerados passíveis de condenação. Pouco depois da sua criação, a Inquisição passou a contar com a parceria das autoridades políticas, que eram encarregadas de prender, torturar e executar os heréticos. Na época da Reforma e da Contrarreforma (século XVI), as ações inquisitoriais tornaram-se mais amplas e violentas. A Igreja Católica recorria à repressão e ao medo a fim de deter a evasão de fieis para as Igrejas Protestantes. Os Autos de Fé eram as cerimônias públicas de execução dos condenados pelo Santo Ofício. O povo assistia a tudo como um filme de terror. Os condenados eram estrangulados, enforcados, queimados e muitas vezes supliciados lentamente. Aqueles que se arrependiam eram estrangulados e queimados já mortos, o que abreviava o seu sofrimento.
Além dos hereges, outros segmentos da sociedade eram vítimas da sanha persecutória da Inquisição Católica: acusados de bruxaria, protestantes, cristãos-novos e qualquer pessoa que fosse alvo de alguma suspeita ou denúncia.

Pessoas sendo queimadas e torturadas pela Inquisição.

Em 1615, a Inquisição considerou que o heliocentrismo, defendido por Galileu, era “tolo e absurdo em filosofia e formalmente herético. Alguns anos depois, o cientista foi considerado veementemente suspeito de heresia, sendo forçado a se retratar e condenado à prisão domiciliar.

Perseguição e fuga para o Brasil

Em 1478, o Papa Sisto IV assinou uma Bula na qual fundou uma nova Inquisição na Espanha. Redigida como resposta à petição dos reis católicos, essa Bula atribuía a difusão das crenças e dos ritos judaicos entre os cristãos novos de Castela e de Aragão à tolerância dos bispos e autorizava os reis a nomear três inquisidores para cada uma das cidades ou dioceses dos reinos. Os cristãos novos, nesta caso, eram os judeus convertidos (à força) ao cristianismo. Apesar da conversão, os cristãos novos eram vistos com desconfiança pelas autoridades eclesiásticas, que não acreditavam nas conversões. As perseguições aos judeus e cristãos novos foram intensas e também atingiram Portugal. Muitos perseguidos fugiram para a América, inclusive para o Brasil.

A Inquisição Espanhola perseguiu e assassinou milhares de pessoas.

Bento Teixeira (1561-1618), escritor português que viveu no Brasil colonial, era cristão novo. Em 1601, fundou o Barroco na literatura brasileira, ao publicar a obra Prosopopeia, um poema épico no qual exalta Jorge de Albuquerque Coelho, terceiro Donatário da Capitania de Pernambuco, onde prosperava a cultura da cana-de-açúcar. Acusado pela esposa de praticar o judaísmo, Bento Teixeira foi muito perseguido pela Inquisição. Acabou falecendo em Portugal, na prisão, acusado de heresia e judaísmo.
As visitações inquisitoriais ao Brasil ocorreram em 1591/95, 1618/21, 1627/28 e 1763/69, existindo farto material sobre os processo iniciados na Colônia e com desfecho na Metrópole. Judaísmo, heresia e bigamia, eram as “práticas criminosas” mais comuns que geraram processos e vítimas da Inquisição no Brasil. O número de prisões foi muito inferior ao português. Em Pernambuco, onde viveu Bento Teixeira, foram 200 prisões para 700 denúncias. Até fins do século XVIII, a Inquisição permanecerá atuante no Brasil.

Réplica de instrumento de tortura do séc. XVI utilizado pela Inquisição. Apresentava orifícios pelos quais se passavam cordas de cânhamo que arrochavam o tórax, os antebraços, os braços, as coxas, as panturrilhas. No decorrer da tortura, essas cordas eram apertadas, por meio de manivelas nas laterais do aparelho. Foto do Museu da Inquisição em Belo Horizonte/MG.

O fim da Inquisição?

As ações inquisitoriais católicas foram praticamente desmanteladas após as Guerras Napoleônicas (1815), ficando restritas ao território dos Estados Pontificiais, que eram domínio exclusivo da Igreja Católica e subordinados à administração papal. Na América, após os movimentos emancipacionistas que culminaram nas independências dos países latino-americanos, houve sensível redução da influência da Igreja. Apesar de alguns países
Adotarem o catolicismo como religião oficial, como o Brasil, a liberdade de credo foi garantida e as ações persecutórias de cunho religioso católico, banidas.

Fica a pergunta? A Inquisição ainda existe? A resposta é sim. Mudou de nome, mas existe. Em 1908, o Papa Pio X renomeou a Inquisição com o nome de Sacra Congregação do Santo Ofício. Em 1965, no Concílio Vaticano II, foi rebatizada com o nome de Congregação para a Doutrina da Fé.
Acredita-se que, além de pedir desculpas, a Igreja deveria extinguir a Inquisição, já que a mudança de nome não modificou a essência desta instituição que, a bem da verdade, vai de encontro às pregações originais do cristianismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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História