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A Revolta da Vacina

  • Nikoguru
  • por em 14 de abril de 2021

A Revolta da Vacina foi um motim popular ocorrido entre 10 e 16 de novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Seu pretexto imediato foi uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, mas também é associada a causas sociais mais profundas, como as reformas urbanas que estavam sendo realizadas pelo prefeito Pereira Passos e as campanhas de saneamento lideradas pelo médico Oswaldo Cruz.

Vacinas, pobreza e falta de saneamento

No início do século XX, o planejamento urbano da cidade do Rio de Janeiro, herdado do período colonial e do Império, não suportava mais o aumento populacional e as atividades econômicos. A cidade sofria com sérios problemas de saúde pública. Doenças como a varíola, a peste bubônica e a febre amarela assolavam a população e preocupavam as autoridades. No intuito de modernizar a cidade e controlar tais epidemias, o presidente Rodrigues Alves iniciou uma série de reformas urbanas e sanitárias que mudaram a geografia da cidade e o cotidiano de sua população. As mudanças arquitetônicas da cidade ficaram a cargo do engenheiro Pereira Passos, nomeado prefeito do Distrito Federal. Ruas foram alargadas, cortiços – que eram localizados nas regiões centrais, foram destruídos e a população pobre foi removida de suas antigas moradias. Mais tarde isso daria origem a favelização do Rio nos morros.

Ao médico Oswaldo Cruz, coube a campanha de saneamento da cidade em 1904, que visava erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Apesar do grande número de internações de varíola no Rio, a população em geral rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Naquela época, era esquisita a ideia de ser inoculado com esse líquido. E para piorar, ainda corria a “fake news” de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

Oswaldo Cruz e Pereira Passos: incumbidos pelo presidente Rodrigues Alves de urbanizar, criar o saneamento básico e combater as epidemias na capital do país.

O Estopim da Revolta

Após debates exaltados, em outubro 1904, o governo tornou obrigatória a vacinação da população em todo o Brasil. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, e autorização para viagens, e quem resistisse a vacinação seria também multado. Quando essa regulamentação foi publicada no jornal “A Notícia” no dia 9 de novembro, as camadas populares iniciaram uma série de conflitos e manifestações que se estenderam por cerca de uma semana. Embora a vacinação obrigatória tenha sido o estopim da revolta, logo os protestos passaram a se dirigir aos serviços públicos em geral e aos representantes do governo, em especial contra as forças de repressão.

Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves, um típico representante da oligarquia da República Velha. Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves – típico representante da oligarquia cafeeira. Uniram-se na oposição monarquistas, militares, republicanos mais radicais e operários. No entanto, esses grupos foram derrotados na tentativa de golpe.

Quebra quebra, mortes e prisões no Rio

“Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.

Bonde virado no Rio de Janeiro, durante a Revolta da Vacina.

No dia 16 de novembro, foi decretado o estado de sítio e a suspensão da vacinação obrigatória. Dada a repressão sistemática e extinta a causa deflagradora, o movimento foi diminuindo. O saldo total foi de 945 pessoas presas na Ilha das Cobras, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportados para o estado do Acre.

Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento crescente de adesão à vacina. Mais tarde, em 1908, o Rio de Janeiro foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, com mais de 6400 mortos. Após isso, houve um movimento contrário: o povo procurando ser vacinado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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História