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Antropofagia no Brasil

  • por em 4 de junho de 2021

Na época do “descobrimento da América, monstruosidades habitavam o imaginário europeu. Os confins do mundo eram habitados por seres assustadores que, claro, aterrorizaram os navegantes. Quando chegaram ao Novo Mundo, ou seja, à América, os europeus se depararam com os nativos.

Monstruosidades que habitavam os confins do mundo segundo o imaginário europeu na Idade Média.

Paraíso e inferno

No primeiro momento, associaram a vida dos indígenas, a flora e fauna exuberantes da América à imagem do Paraíso terrestre. Assim como Adão e Eva, os nativos andavam nus e não “escondiam suas vergonhas”. Durou pouco essa imagem paradisíaca. Em curto espaço de tempo, os nativos foram associados às monstruosidades do imaginário dos homens civilizados. Logo, a nudez deixou de ser representação da ingenuidade para se identificar com o pecado e o inferno. Mas, algo mais assustador emergia no horizonte das relações entre Velho e Novo Mundo: a antropofagia ou canibalismo. De fato, era apavorante.

Canibal e antropófago

O termo canibal surgiu no início dos contatos com os nativos da região do Caribe (canibe). Tais nativos comiam seres humanos em rituais que, geralmente, implicavam comer o inimigo. Há registros nos escritos de Colombo que relatam o canibalismo.

O termo antropofagia vem do do grego “antropos”, homem e “phagein”, comer.

Portanto, o ato de comer carne humana pode ser definido como antropofagia ou canibalismo.

Nativos brasileiros

A antropofagia era praticada por algumas tribos no litoral brasileiro e estava vinculada à tradição da guerra. Entre os nativos, as guerras tribais  faziam parte da tradição. Os inimigos capturados por tribos antropófagas eram comidos após um ritual de execução. Era uma honra um guerreiro ser morto por seus inimigos no ritual da antropofagia, uma vez que os nativos devoravam a coragem e as virtudes do nativo executado. Por isso, morrer desta maneira honrava o guerreiro capturado e executado, pois sabia ele que os seus inimigos estavam atrás de sua coragem e das suas virtudes. 

Ritual de canibalismo segundo Hans Staden.

Hans Staden (1525 – 1576) foi um alemão  capturado por índios tupinambás na região de São Paulo. Durante o cativeiro, ele assistiu horrorizado à execução de um tapuia, logo devorado pelos seus captores. Depois de passar nove meses prisioneiro, Staden foi negociado por um capitão de um navio francês e, em seguida, libertado. Chegou à Europa em fevereiro de 1555. Logo, publicou o livro “Duas Viagens ao Brasil”, relatando sua fantástica aventura entre os canibais brasileiros. É claro que o livro tornou-se um best-seller.

O triste fim de D. Sardinha

O primeiro bispo nomeado para o Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha (1496 – 1556), desembarcou em Salvador em 1551. Alguns anos depois, ao retornar a Lisboa, seu navio naufragou na costa nordestina. O relato do cronista Simão de Vasconcellos mostra o que aconteceu com os náufragos e com o próprio Bispo Sardinha.

“Em uma enseada, junto a este rio, alguns anos depois, sucedeu o triste desastre do naufrágio do bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, primeiro do Brasil, que dando nela á costa, foi cativo dos índios Caetés, cruéis e desumanos, que conforme o rito da sua gentilidade, sacrificaram à gula, e fizeram pasto de seus ventres, não só aquele santo varão, mas também a centena e tantas pessoas, gente de conta, a mais dela nobre, que lhe faziam companhia voltando ao reino de Portugal.”

Uma triste ironia, um bispo com o nome de D. Sardinha, saído do mar e comido por índios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.