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Brasil: Fé, Lei e Rei

  • por em 11 de maio de 2021

A presença da Igreja Católica é registrada nos primeiros instantes da dominação portuguesa em nossas terras. No dia 26 de abril de 1500, foi celebrada a primeira missa no Brasil, por frei Henrique de Coimbra.

Na verdade, a presença da Igreja é anterior à chegada de Cabral ao Brasil, pois o Expansionismo Marítimo, também conhecido como Grandes Navegações, tem como uma de suas causas principais, o propósito da “Missão Evangelizadora”. Então, antes mesmo de chegar aqui, os portugueses estavam imbuídos do espírito cristão e católico. Evangelizar os povos existentes nas terras por descobrir, eis a missão.

A primeira missa no Brasil. Pintura de Victor Meireles, 1861.

Na Carta de Pero Vaz de Caminha, considerado escrivão da frota de Cabral, observa-se o propósito catequético:

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

Pero Vaz de Caminha

É claro que “salvar essa gente” significava converter os nativos (essa gente) ao catolicismo.

Em 1578, Pero de Magalhães Gândavo, cronista português, assim descreveu os nativos:

A língua de que usam, toda pela costa, é uma: ainda que em certos vocábulos difere em algumas partes; mas não de maneira que se deixem de entender. (…) Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente.

Pero de Magalhães Gândavo

Portanto, no primeiro século da ocupação lusitana nas terras brasileiras, reforça-se a postura eurocêntrica e católica, pois os nativos permanecem sendo tratados como bárbaros que precisam de Fé, Lei e Rei, pois não os tinham.

Em 1551, foi fundado o Bispado do Brasil, com sede em Salvador, então a capital da Colônia. D. Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo, entretanto, teve trágico destino, pois naufragou na costa nordestina, em julho de 1556. Os náufragos, dentre eles D. Pero, conseguiram chegar à costa, mas foram capturados por nativos antropófagos que os mataram e os comeram, como descreve a crônica de Simão de Vasconcellos:

Em uma enseada, junto a este rio, alguns anos depois, sucedeu o triste desastre do naufrágio do bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, primeiro do Brasil, que dando nela á costa, foi cativo dos índios Caetés, cruéis e desumanos, que conforme o rito da sua gentilidade, sacrificaram à gula, e fizeram pasto de seus ventres, não só aquele santo varão, mas também a centena e tantas pessoas, gente de conta, a mais dela nobre, que lhe faziam companhia voltando ao reino de Portugal.

Simão de Vasconcellos

Entramos, desse modo, noutra questão importante acerca da presença da Igreja e da religião nas terras brasileiras: a antropofagia ou o canibalismo que, obviamente, amedrontavam os habitantes da Colônia. A antropofagia não era praticada por todas as tribos brasileiras. Além disso, era vinculada a um ritual, no qual ao nativos antropófagos comiam “as virtudes” dos seus inimigos. Os europeus associavam essa prática às monstruosidades demoníacas que faziam parte de seu imaginário. Na perspectiva religiosa, a antropofagia era relacionada ao demônio e, nesse contexto, os nativos acusados de serem canibais eram passíveis de escravização e morte.

Ritual de antropofagia dos Tupinambás, segundo Hans Staden.

Falando em demônio, chegamos ao ano de 1591, quando chega ao Brasil a primeira visitação da Inquisição. A Igreja Católica, por meio da Inquisição ou Santo Ofício, vigiava a conduta dos fieis.

Os acusados de heresia – crimes contra a religião – eram investigados pelos visitadores inquisitoriais. Os acusados poderiam ser enviados a Portugal, onde haveria julgamento e a sentença, que poderia ser a de pena de morte.

Por último, vamos aos “homens bons”. Esta definição refere-se aos habitantes da Colônia que eram brancos, proprietários de terras e ….católicos! Estes indivíduos compunham o que se pode chamar de elite colonial. É claro que os portugueses, nascidos em Portugal e, principalmente fidalgos, ocupavam os patamares mais elevados da nossa sociedade.

Elite colonial ou “homens bons” segundo o artista francês Debret.

Assim era o Brasil Colônia: católico por devoção e por imposição. Temente à Igreja, à Coroa e a Deus, não necessariamente nessa ordem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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História
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