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Luiz Gama, o Apóstolo Negro da Abolição

Filme Prisioneira da Liberdade

No final de 1888, D. Pedro II encontrava-se no exterior, em tratamento com o Dr. Charcot (1825/1893), médico neurologista famoso. A saúde do imperador do Brasil não andava bem. O Império não andava bem.

Isabel, filha de D. Pedro II, era a regente e governava o Brasil em nome do pai precocemente envelhecido e adoentado.

O processo abolicionista chegava ao clímax e, no dia 13 de maio, a Assembleia Nacional (deputados e senadores) havia elaborado a Lei Áurea: a escravidão estava extinta no Brasil. Os escravos, após séculos de cativeiro, estavam livres. Nesta época, eram aproximadamente 700 mil escravos no País. Agora, 700 mil pessoas livres.

Foto rara no Brasil Império: senhora com dois escravos.

Abolicionista desde sempre, Isabel sancionou a Lei Áurea. Feliz, a princesa regente, após assinar a augusta lei, perguntou ao Barão de Cotegipe (1815/1889), político influente e seu amigo, o seguinte:

_ “Então senhor Barão, ganhei ou não ganhei a partida?

Circunspecto, como sempre, Cotegipe respondeu:

_ “Vossa Alteza ganhou a partida, mas perdeu o trono”.

É fácil explicar o teor dessa conversa. Isabel fazia parte do grupo dos abolicionistas (políticos, artistas, jornalistas, advogados …). Já estava na hora de acabarmos com a maior “nódoa” da nossa história, como disse Joaquim Nabuco, outro grande abolicionista. Entretanto, na perspectiva dos escravagistas, o escravo era propriedade. Portanto, a Lei Áurea deveria estabelecer indenização aos proprietários dos 700 mil escravos que foram libertados, indenização que não foi estabelecida pela Lei. Não se pode tocar na propriedade privada sem antes indenizar o proprietário, não é mesmo? Vários mestres da política e da filosofia abordaram esta questão. Os escravagistas, inconformados com a não indenização, deixaram de apoiar o governo imperial e foram para a oposição, engrossando as fileiras republicanas. Isabel, feliz ao assinar a Lei Áurea, não entendeu o vaticínio de Cotegipe e, parece, não conhecia alguns fundamentos de política.

Ilustração de Jean-Baptiste Debret retratando o açoite de um escravo em praça pública no Rio de Janeiro.

Assim, chegamos a Luiz Gama (1830/1882). Filho de mãe negra africana livre e pai branco, nascido na Bahia. Analfabeto até os 17 anos, conseguiu estudar e, com muita dificuldade (negro e pobre), atuou como funcionário público, jornalista e advogado. Consta que seu trabalho no Direito resultou na libertação de 500 escravos. Durante um júri, Gama afirmou que “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Frase polêmica e, claro, geradora de fortes críticas. Mas, quanta verdade há nesta frase!!!!

Luiz Gama

Aos 10 anos de idade, Luiz Gama foi vendido pelo pai como escravo. Isto mesmo. O menino foi vendido pelo pai como escravo. Após muitas idas e vindas, Luiz Gama conquistou a liberdade. O curioso é que ele era livre, foi vendido como escravo pelo pai e, agora, tornou-se livre de novo. O jovem conquistou duas vezes a liberdade. Pelo nascimento e pela luta.

Advogado militante na causa abolicionista, Gama juntou-se ao grupo daqueles que lutavam contra a escravidão no Brasil. Atuava quase sempre gratuitamente. Foi homem, negro, pobre, escravizado, livre, guerreiro … Acima de tudo, Luiz Gama não aceitou a desumanidade e a crueldade de uma das piores, senão a pior, das invenções humanas: a escravidão.

Ao assinar a Lei Áurea, Isabel não poderia prever os desdobramentos políticos e nem a iminência da queda da monarquia. Na Europa, o imperador D. Pedro II, doente, tratava-se com o Dr. Charcot.

Princesa Isabel ao lado de D. Pedro II

Aqui no Brasil, no dia 13 de maio de 1888, 700 mil pessoas ganhavam a liberdade. Luiz Gama não viveu até esse dia, pois faleceu precocemente em 1882. Mas, seu legado ecoa até nossos dias.

Matar um opressor é um ato de legítima defesa. Esta é a lição.

A imagem de destaque desse artigo foi retirada do filme “Prisioneiro da Liberdade” (2019) de Jeferson De, que conta a história de Luiz Gama.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.