Nikoguru

O período pré-colonizador no Brasil

  • por em 7 de junho de 2021

Em 1500, a esquadra de Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. Logo, os portugueses encontraram os nativos. Foi um encontro cordial, como relatou o escrivão da frota, Pero Vaz de Caminha:

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram.

Os primeiros contatos com os nativos e com a terra recém descoberta indicavam que não havia o que os lusitanos procuravam. Caminha assim demonstrou a decepção:

Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos.

O ideal missionário – vamos salvar esta gente

Assim, desenrolava-se o processo do “Descobrimento” do Brasil. O Novo Mundo abria-se diante dos olhos dos portugueses, admirados com a exuberância da fauna e da flora, com os nativos que os receberam de modo amistoso. Entretanto, não se pode esquecer o contexto que levou Cabral a chegar ao Brasil. A Expansão Marítima e Comercial estava em curso, e Portugal buscava um caminho marítimo para as Índias, o que ocorreu na excepcional expedição de Vasco da Gama, de 1498. Os portugueses procuravam também metais preciosos, o que não encontraram por aqui. Outro motivo do expansionismo lusitano era a missão evangelizadora, ou seja, difundir o catolicismo pelo mundo, convertendo os povos nos locais encontrados pelas expedições. Retornando à Carta de Caminha, observamos que o ideal missionário estava presente na expedição:

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

Quando o escrivão diz “salvar esta gente”, ele se referia à conversão do indígena ao catolicismo.

Pau de tinta, pau-brasil

Apesar do Brasil não ter atrativos econômicos, a Coroa portuguesa enviou algumas expedições de reconhecimento e proteção a nossa  imensa costa. Assim, o pau-brasil foi encontrado e se transformou na primeira riqueza explorada aqui. Havia pau-brasil em grande parte do litoral, do Nordeste até a região Sudeste. A madeira produzia um pigmento vermelho de muito valor para tingir tecidos na Europa. De imediato, a Coroa decretou a madeira como estanco real, ou seja, quem quisesse explorar o pau-brasil deveria obter a autorização do governo lusitano, pagar impostos devidos etc. Foi o que aconteceu com Fernando de Noronha,  cristão novo (judeu convertido ao catolicismo) e um dos primeiros comerciantes a explorarem o pau-brasil.

A extração da madeira era feita pelos índios no esquema do escambo: trocavam a madeira por objetos (facas, espelhos, contas de vidro etc) que os portugueses traziam. Não havia assalariamento ou escravização dos nativos. Havia a mais primitiva das formas de comércio, que era a troca. A madeira era depositada nas Feitorias, uma espécie de galpão fortificado, e esperavam a chegada dos navios que deveriam transportá-la para a Europa.

Mapa “Terra Brasilis” de 1519: a visão do português sobre a nova terra.

O francês Jean de Lery, que esteve no Rio de Janeiro, no século XVI, relatou uma conversa com um indígena brasileiro:

Em geral, os nossos tupinambás ficam bem admirados ao ver os franceses e os outros dos países longínquos terem tanto trabalho para buscar o seu arabotã, isto é, pau-brasil. Houve uma vez um ancião da tribo que me fez esta pergunta: “Por que vindes vós outros, mairs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?

Fica evidente o choque de culturas, uma vez que o nativo, que ainda estava no neolítico, não conhecia os meandros da economia de mercado do homem “civilizado”.

O pau-brasil, além de outros produtos aqui encontrados, atiçavam a cobiça de corsários, como ocorreu em 1532, quando os portugueses capturaram um navio francês carregado com 15 mil toras de pau-brasil, três mil peles de onça, 600 papagaios e 1,8 tonelada de algodão, além de óleos medicinais, pimenta, sementes de algodão e amostras minerais.

Ocupar para não perder a terra

A constante ação de piratas e corsários ameaçava o domínio português. Cristóvão Jacques, um dos comandantes enviados para proteger o litoral brasileiro, declarou à Coroa que, para efetivar e garantir a posse do Brasil, era necessário colonizar o território.

Foi o que fez D. João III, rei português. Em 1530, ele dividiu o Brasil em grandes lotes (Capitanias Hereditárias) doados a fidalgos – chamados de donatários. Estes deveriam arcar com o ônus de ocupar, proteger e explorar a capitania recebida. Em 1530, o período pré-colonizador chegava ao fim e começava, assim, em 1530, a colonização do Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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