Nikoguru

O romântico José

  • por em 12 de junho de 2021

José, filho de padre e criador de Iracema

José de Alencar nasceu em 1829, nos instantes finais do governo de D. Pedro I. O pai, do mesmo nome, era padre. A mãe, prima do pai. Nordestino e cearense, o menino José andou pelo Brasil, estudou, acompanhou o pai, padre e político, este senador do Império e presidente da província do Ceará.

Estudante de Direito na faculdade paulista, José de Alencar contraiu tuberculose, doença que o mataria aos 48 anos de idade.

Desde cedo escritor, Alencar é o expoente do Romantismo, considerado como a primeira literatura genuinamente nacional. Autor de Iracema (1865), um clássico no qual o escritor recorre ao elemento indígena como identificador da nacionalidade e da pátria. Neste caso, o indígena era idealizado e estava bem longe da realidade das populações nativas, que até hoje mal conhecemos. A índia Iracema, a virgem dos lábios de mel, habitava o romance romântico.

José de Alencar (1829 – 1877)

O Romantismo escapava da realidade, criava um mundo paralelo no qual tudo era idealizado, a mulher, as relações humanas, o amor, a história, a natureza …

José, o escravagista

O escritor José de Alencar, tuberculoso, casou-se, teve filhos, foi advogado … e atuou na política também, seguindo os genes do pai e da família. Alencar era conservador, vinculado ao Partido Conservador que representava a elite rural escravagista. Bernardo Pereira de Vasconcelos, um dos líderes deste Partido, era de Saquarema (RJ) e, por isso, os conservadores eram chamados de “saquaremas”. Como um legítimo “saquarema”, José de Alencar defendia a escravidão. Não para proteger a economia cafeeira que necessitava sempre de braços para a lavoura. Não por questões econômicas. Alencar, autor de Iracema e de tantos livros que encantaram gerações, considerava a escravidão como um elemento necessário ao processo civilizatório, tendo em vista que o negro escravizado – instalado num estágio inferior ao homem branco – teria condições de aprender pelo trabalho escravo. Libertar um escravo, na verdade, seria uma castigo, pois libertos, os cativos estariam entregues à própria sorte e sem condições de sobreviver.

Família brasileira – Debret (1830).

Pobre José

O escravo necessitava da proteção amiga do senhor. Repetindo as palavras de Alencar, “O escravo deve ser, então, o homem selvagem que se instrui e moraliza pelo trabalho. Eu o considero nesse período como o neófito da civilização.”

Bom, José de Alencar foi um grande escritor, idealizou a nação brasileira. Foi decididamente um homem fora de seu tempo. Ou seria melhor dizer que Alencar foi um homem dentro de seu tempo?

Morto em 1877, José de Alencar não viu a Lei Áurea que aboliu a escravidão em 13 de maio de 1888. Se vivo fosse, deveria achar que o Brasil, naquele momento abolicionista, estaria andando para trás. Pobre Alencar.

Créditos(*): imagem de divulgação do musical “Iracema dos lábios de mel” do diretor Ilclemar Nunes (2017).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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