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Quinhentismo

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  • por em 23 de abril de 2021

Quinhentismo corresponde ao período literário durante o século XVI (1500 – 1601), no período pré-colonial brasileiro. Ele representa todas as manifestações literárias produzidas no Brasil nessa época. Ainda não se trata de literatura genuinamente brasileira, mas sim parecido ao classicismo português e possui ideias relacionadas ao renascimento, que vivia o seu ápice na Europa.

Os temas do quinhentismo tratam dos próprios objetivos da expansão marítima portuguesa: a conquista material trazida pelas grandes navegações; e a conquista espiritual resultante pela literatura jesuítica da Companhia de Jesus.

A exaltação da terra exótica e exuberante seria sua principal característica, marcada pelos adjetivos, quase sempre empregados no superlativo. Esse ufanismo e exaltação do Brasil seria a principal semente que resultaria em uma série de revoltas nativistas a partir do século XVII.

A primeira carta escrita em solo brasileiro pelo fidalgo português e escrivão Pero Vaz de Caminha em 1º de maio de 1500, seria o marco inicial da literatura informativa no Brasil e de enorme valor histórico.

Literatura Informativa

A literatura informativa consiste em relatórios, documentos e cartas que se descrevem as florestas, fauna, os habitantes locais e seus costumes. Apesar do teor romântico, elas tinham os objetivos de conquista das riquezas e a propagação da fé cristão nessa nova terra.

Com o crescente interesse dos europeus pelas terras recém-descobertas, expedições formadas por comerciantes e militares eram organizadas no intuito de descrever e noticiar a respeito das novas terras. Entre estes, estaria Pero Vaz de Caminha, escrivão que acompanhou a armada de Pedro Álvares Cabral, em 1500. Sua Carta ao Rei de Portugal, Dom Manuel sobre o descobrimento do Brasil é um dos principais exemplos da literatura informativa do quinhentismo.

Pero Vaz de Caminha e a Carta de Descobrimento do Brasil.

Literatura de Catequese

Após a literatura informativa, se desenvolveu um outro tipo de literatura no Brasil, a dos Jesuítas, que tinha como objetivo principal expandir o cristianismo.

A criação da Companhia de Jesus foi uma reação da Igreja Católica contra a Reforma Protestante na Europa. A principal preocupação dos jesuítas era o trabalho de catequese, que logo expandiu sua atuação nas terras descobertas na América. Isso determinou toda a sua produção literária, tanto na poesia como no teatro no Brasil. Além da poesia de devoção, os jesuítas cultivaram o teatro de caráter pedagógico, baseado também em trechos bíblicos, para converter os indígenas nativos ao cristianismo

Padre Anchieta.

O principal representante desse tipo de literatura, foi o padre José de Anchieta se propôs ao estudo da língua tupi-guarani e é considerado o precursor do teatro no país. O religioso viveu entre os povos indígenas e foi o autor de várias poesias de devoção.

Exemplos de Literatura Quinhentista

Trechos da Carta de Descobrimento de Pero Vaz de Caminha em 1500.

A pele deles é parda e um pouco avermelhada. Têm rostos e narizes bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas mais do se que preocupariam em mostrar o rosto. E a esse respeito são bastante inocentes.(…)

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, eles se tornaria, logo cristãos, visto que não aparentam ter nem conhecer crença alguma. (…) de acordo com a santa intenção de Vossa Alteza, se tornem cristãos e passem a crer na nossa santa fé. Isso há de agradar a Nosso Senhor, porque certamente essa gente é boa e de bela simplicidade. (…) E creio que não foi sem razão o fato de Ele nos ter trazido até aqui.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem os vimos. Contudo, a terra em si é de bom clima, fresco e temperado, como os de Entre-D’Ouro-E-Minho, nesta época do ano. As águas são muitas; infinitas. De tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem!

Trecho da poesia “Poema à Virgem Maria” do padre Anchieta em 1563.

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de Cristo.
Prova do novo amor que nos conduz a união!
Porto do mar que protege o barco de afundar!
Em Ti todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
Tu, Senhor, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!
Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!
Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu Senhor!
Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifique com água a sujeira espiritual!
Embaixo deste teto que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.