Nikoguru

O idoso e a chegada do ubasute

  • por em 21 de maio de 2021

Há uma palavra japonesa, ubasute, que orientará este artigo.

Em 2011, Ritsuko Tanaka foi preso por abandonar o pai que sofria de Alzheimer. Alguns anos depois, em 2015, Katsuo Kurokawa de 63 anos abandonou sua irmã nas montanhas de Chiba.

O termo ubasute significa “abandonar o idoso” e atualmente está presente na literatura e no folclore japonês. Antigamente, antes da abundância da era industrial, quando a vida era uma luta diária e a fome batia na porta de muita gente, abandonar os idosos foi uma prática no Japão, sabia? Em épocas mais remotas, nas quais a escassez de comida era constante. Faltava tanto, que alguns ficariam sem alimento.

O ato de abandonar alguém para que os demais pudessem sobreviver era uma dor pessoal e social. Mas, era inevitável. Muitas vezes, o próprio idoso era quem decidia que deveria ser abandonado a fim de não ser mais um fardo para a família.

Kamurikiyama no Japão.

Em Chikuma, na prefeitura de Nagano, existe uma montanha chamada Kamurikiyama. Essa montanha é famosa  por ser uma Obasuteyama, ou seja, um local de abandono de idosos em outras épocas do Japão.

O envelhecimento da população no Brasil

Saindo do Japão e entrando no Brasil, mas sem deixar o assunto, chegamos à historia de Amélia,  76 anos, viúva há alguns anos e morando  sozinha. Ela diz que “à  noite é o pior momento. Durante o dia, ligo a tevê, o rádio, escuto música e, assim, ocupo a cabeça, parece que tem gente por perto. Mas, de noite, está tudo apagado, a casa trancada e eu me sinto como uma prisioneira”. A sua companhia são as vozes que ecoam nos programas noticiários do rádio e da TV. Amélia, mulher de verdade, diz que tem um filho adotivo que, de vez em quando, a visita.

A Urbanização e o desenvolvimento econômico reduziram as  taxas de mortalidade e natalidade. O resultado foi  um crescimento populacional expressivo. O país entrou no chamado “bônus demográfico”, no qual  a relação entre população ativa e aposentada favoreceu o crescimento. Neste momento, a população ainda é bem jovem, mas suas taxas de mortalidade e de natalidade já caíram. Entretanto, a população idosa está crescendo. Projeções do IBGE indicam que, na década de 2060, a população idosa no Brasil atingirá mais de 40 por cento. Se em 2000 tínhamos 10 pessoas em idade ativa para cada idoso, em 2060 teremos apenas duas.

O Estatuto do Idoso

A Constituição brasileira, promulgada em 1988, inovou ao determinando uma Política Nacional do Idoso, que tem sua base em cinco princípios:

I – a família, a sociedade e o estado têm o dever de assegurar ao idoso todos os direitos da cidadania, garantindo sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade, bem-estar e o direito à vida;

II – o processo de envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser objeto de conhecimento e informação para todos;

III – o idoso não deve sofrer discriminação de qualquer natureza;

IV – o idoso deve ser o principal agente e o destinatário das transformações a serem efetivadas através desta política;

V – as diferenças econômicas, sociais, regionais e, particularmente, as contradições entre o meio rural e o urbano do Brasil deverão ser observadas pelos poderes públicos e pela sociedade em geral, na aplicação desta Lei.

Em 2003, foi promulgado o Estatuto do Idoso, que  visa a garantia dos direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. O Estatuto aborda questões familiares, de saúde, discriminação e violência contra o idoso.

Há respeito ao idoso?

A questão é que, independentemente da existência de leis e da disponibilidade de recursos, o idoso é considerado por muitos como um entrave, empecilho, traste e alguém que incomoda os demais. O idoso é a negação da juventude, da beleza e dos valores que norteiam a humanidade, ontem e hoje. Abandono parece ser uma palavra presente no dicionário da vida dos idosos. Em qualquer parte do mundo.

Apesar de ser japonesa, ubasute é uma palavra que nós entendemos muito bem. E sabemos que a hora de sermos deixados na montanha chegará.

Abandonar o idoso não tem relação com falta ou abundância de recursos.

Ubasute está dentro da humanidade, como uma tatuagem. Apagá-la é difícil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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