Nikoguru

Skinheads e as perucas

O cabelo sempre foi tratado como um adorno importante e precioso para as mulheres e os homens. No antigo império romano, surgiram as perucas que permitiam a elaboração de penteados mais elaborados e que demonstrassem a posição social.

Na corte de Luís XIV (1638/1715), o famoso “Rei Sol”  da França, a peruca foi transformada pelo próprio rei numa indumentária da moda mais refinada. O rei, calvo precocemente, escondeu seu “defeito” no uso das perucas enormes, feitas de cabelo humano ou crinas de cavalo. 

Rei Sol: cabelos longos era símbolo das classes privilegiada.

Os carecas na história

Ficar sem cabelo ainda é algo que desqualifica pessoas. A calvície sempre foi um elemento deletério para a pessoa. No passado, em várias regiões, os escravos tinha seus cabelos raspados para serem mais facilmente identificados e explicitarem sua condição inferior.

Na Idade Média, membros da Igreja Católica possuíam tonsuras – tipo de cabelo raspado. A tonsura era um rito de iniciação à vida religiosa e também uma forma de demonstrar desapego à vaidade. Além disso, como muitos escravos tinham a cabeça raspada, os monges católicos demonstravam ser escravos … de Cristo.

Monges budistas também raspam a cabeça. E é claro, tem um significado: o monge tornava-se mais feio e despertava a atenção dos outros. Além disto, o ato de raspar os fios simbolizava raspar os fios da ignorância, das paixões, da tolice e da vaidade.

No século XVII, na Inglaterra, as tropas leais a Oliver Cromwell (1599/1658) eram chamadas de “cabeças-redondas”, uma vez que cortavam o cabelo bem rente à cabeça como forma de se diferenciarem da nobreza, cujos cabelos (perucas?) eram longos como era praxe na elite. Cortar ou raspar o cabelo, na Revolução Puritana que Cromwell liderou, era um posicionamento político. Em 1649, com a vitória dos “cabeças-redondas”, o rei destronado, Carlos I (1600/1649) foi decapitado. 

“Cabeças redondas” da Revolução Puritana

Nos tempos atuais, chegamos aos “skinheads”. E a questão da cabeça raspada vai ficar complicada, pois o termo skinheads” – cabeças raspadas – é associado aos neonazistas e grupos fascistas. Entretanto, sua origem tem outra história. Entre as décadas de 1950/70, surgiu o SKA, movimento musical que misturava mento, calipso, jazz, jump, blues e rhythm blues considerado como precursor do reggae e do rocksteady. Da Jamaica e dos Estados Unidos, o ritmo chegou à Inglaterra. As letras denunciavam a marginalização, o preconceito e a violência policial. Os jovens de origem negra e pobres, denominados de “Rude Boys” (meninos rudes), aderiram e consolidaram esse movimento musical que era a sua forma de protesto. O visual dos “rude boys” está na origem dos “skinheads”. Isto mesmo, os “skinheads” surgem na luta dos mais pobres e dos negros, enfim, das camadas mais humildes.

Outras cabeças raspadas

A grave crise econômica dos anos 1970 e a introdução da ideologia nacionalista na classe trabalhadora branca provocaram uma cisão no meio “skinhead”. O discurso do ódio conta os imigrantes e os não brancos cresceu. O visual – careca, botas coturnos, jeans e camisetas, suspensórios – Era o mesmo para vários grupos ideologicamente rivais. De um lado, os “skins” marginalizados negros, imigrantes e da periferia. De outro lado, os “skins” marginalizados brancos racistas e xenófobos.

“Rude boys” dos anos 70 – negros e brancos pobres e marginalizados.

Os skinheads de direita (neonazistas, fascistas) se misturaram aos hooligans (violentos torcedores de futebol) e deram vazão a sua ira contra tudo e contra todos, especialmente contra os não brancos, os estrangeiros e outras minorias na Europa e no mundo. Até no Brasil. Estes “skins” são os que têm visibilidade na mídia e, por isso, obscurecem o passado “skin”. Os outros “skins” sumiram.

Perucas da autoestima

Falando em cabelo e na falta dele, a escoteira Valentina, de 10 anos de idade, resolveu cortar seus cabelos para doá-los para confecção de perucas a pacientes com câncer. A peruca, disse Valentina, melhora a autoestima das pacientes e ajuda na recuperação. Junto com a mãe e outras amigas do grupo de escoteiras, Valentina criou a campanha “Fio de esperança”. E deu certo!

A humanidade deve ficar muito atenta quando for fazer perucas ou raspar a cabeça. Para algumas causas, vale a pena. Para outras, não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Redação

All Comments

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Alex

Os Rude Boys, negros e brancos, saíam para espancar paquistaneses e outros imigrantes. A raiz fascistóide já estava no DNA dos skins.