Nikoguru

Dreads é mais que um penteado

  • por em 23 de maio de 2021

A apropriação cultural ocorre no  momento em que um povo ou uma pessoa adotam elementos de outra cultura, tais como imagens, objetos, comportamentos específicos, símbolos etc. Algo neste sentido vem ocorrendo na humanidade, mas … é preciso refletir sobre o tema.

Resistir é inútil, você será assimilado!

Na Mesopotâmia, surgiu a primeira civilização, a suméria, por volta do ano 4000 a.C. os sumérios inventaram a escrita. Pouco depois, chegaram os acádios e dominaram a região. A escrita suméria foi adotada pelos acádios e assim, sucessivamente, pelos amoritas, assírios e caldeus. Todos usufruíram uma marca cultural: a escrita. Isso sem falar na religião, nos conhecimentos técnicos, na agricultura etc. À medida que povos conquistadores chegavam, assimilavam a cultura dos povos dominados. Mas, também, impunham a sua cultura, agregavam mais “bites” ao processo civilizatório.

A Grécia antiga, considerada como o berço da civilização ocidental, da democracia e da filosofia, foi dominada pelos romanos. Processo semelhante ao mesopotâmico ocorreu, ou seja, os romanos assimilaram muita coisa da cultura grega, principalmente na religião.

Muita da cultura grega antiga foi incorporada ao Império Romano.

Quando os bárbaros chegaram e liquidaram o Império Romano do Ocidente, em 476 da nossa Era, também assimilaram a cultura romana, como a língua – o latim – e a religião – a cristã. Sim, a religião romana era a cristã. Isto quer dizer que os romanos se apropriaram da religião dos cristãos e estes se apropriaram da religião dos hebreus.

O Direito romano é a base do direito ocidental. Então, uma criação cultural romana foi apropriada por nós, como também nos apropriamos da filosofia grega, da escrita dos fenícios e da engenharia mesopotâmica.

Da Antiguidade, pulamos para a contemporaneidade e chegamos aos “dreads”, um tipo de arranjo de cabelo ou penteado que peculiariza os negros e sua história.

Os dreads e a escravidão

O termo tem um de seus registros no tráfico negreiro, que era o comércio transoceânico de escravos africanos. Enfiados nos navios tumbeiros, os cativos passavam dias e dias em condições terríveis. Ao desembarcarem nos portos americanos, os escravos chegavam num estado lastimável. Os cabelos crescidos, embaraçados e em forma de tufos. Nas colônias inglesas, esses cativos eram chamados de “dreadfull”, algo como monstruoso. Esta é a origem do termo “dread” aplicado a um determinado tipo de cabelo, que tem um forte vínculo com a escravidão e a realidade dos negros.

Mercado de Nova Iorque: no mesmo local vendia negros, cavalos e gado.

A escravidão acabou, no Brasil, em 1888. Nos Estados Unidos, a abolição ocorreu em 1863, mas a segregação racial que vitimava os negros, somente foi proibida na década de 1960.

Apropriação cultural dos dreads

Os elementos de uma cultura são assimilados por outra. Assim ocorre na humanidade desde sempre. As sociedades estão se apropriando da escrita, o direito, a engenharia, a arquitetura, a culinária, a língua e tanta coisa.

Entretanto, quando alguém usa um símbolo que representa um elemento de resistência e de identificação de um cultura, sem ser daquela cultura, a coisa muda de figura.

A polêmica surge, e com razão.

A cantora Katy Perry, branca, transformou seus cabelos em “dreads” e produziu um clipe assim. Foi criticada por ter se apropriado de um elemento que é considerado símbolo da resistência dos negros. Katy não entendeu a crítica. Não entendeu por que usar o seu cabelo daquela forma era uma ofensa à luta dos negros por reconhecimento e espaço. Katy não entendeu, mas afirmou que vai buscar conhecimento e se educar para compreender mais essas coisas.

É pela educação que vamos aprender que quem usava “dreads” no passado era um povo escravizado e sujeito às piores provações que os seres humanos podiam passar.

Quando uma moça branca, rica e famosa, usa “dreads”, ela está mostrando que sabe quase nada sobre o outro.

As vidas dos outros importam. E o seu passado também. Não era legal ser chamado de monstruoso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Roney Pereira

Que aula!

Alessandra Mizher

Sensacional!!!!

claytonvirus

Você é um escravo? Não? Então também não tem direito de usar Dread. O Dread nunca foi uma “Cultura do Negro” e sim dos escravos. Os negros que não eram escravizados não usavam Dread. Pare de se apropriar da cultura dos escravos se você não é e não foi um escravo. Vlw Flws e até mais.