Nikoguru

Invisibilidade social

É o padeiro, não é ninguém

O escritor Rubem Braga (1913/1990) publicou, em 1969, uma crônica com o título “O padeiro”, na qual fala sobre o entregador de pães que, ao deixar o pão na porta da casa das pessoas, tocava a campainha e dizia:

_ “Não é ninguém, é o padeiro.”

Ainda na crônica, o autor interpelou o padeiro e perguntou o porquê de se apresentar como “ninguém”. O padeiro respondeu que, há muito tempo, aprendeu a se apresentar assim, pois quando tocava a campainha, e alguém perguntava quem era, as empregadas da casa diziam que “não é ninguém, é o padeiro”.

A partir desta crônica genial, na qual o autor de forma sensível apresenta o cotidiano, iniciarei a questão da Invisibilidade Social.

Os invisíveis na História

Além do “padeiro”, há uma infinidade de invisíveis ao nosso redor. São pessoas, fatos, monumentos, instituições etc. São elementos que nos acompanham, nos influenciam, nos tocam … mas não são sociologicamente enxergados.

Vamos utilizar algumas situações vivenciadas por todos nós e fáceis de serem entendidas. Vamos tornar visíveis algumas coisas invisíveis por meio da História.

O primeiro caso é o “descobrimento do Brasil”. O próprio termo é um excelente exemplo da invisibilidade social. A inclusão nos livros de História da expressão “descobrimento” torna o indígena invisível, uma vez que se desconsidera que as terras brasileiras eram habitadas por nossos povos originários. Vale a perspectiva do europeu, mas não vale a perspectiva do nativo.

O mito da democracia racial

O segundo caso é a formação do povo brasileiro. O que aprendemos nas escolas sobre isto? O nosso povo foi resultado da miscigenação do branco com o negro, do branco com o índio e do índio com o negro. Tais cruzamentos originaram, respectivamente, o pardo, o mameluco (ou caboclo) e o cafuzo. Mais uma vez, a História torna invisível uma das mais dramáticas realidades vivenciadas pelas mulheres negras, indígenas e mestiças. Deste modo, nossos livros de História, especialmente aqueles dedicados ao ensino fundamental, promovem mais uma invisibilidade social.

E umas das mais dramáticas e tristes. O pardo e o caboclo, na fase de colonização do Brasil, foram fruto do cruzamento do homem branco com a mulher negra (pardo) e do homem branco com a  mulher indígenas (mameluco ou caboclo). Viu como a invisibilidade das mulheres negras, indígenas e mestiças veio à tona? Percebeu que o processo de miscigenação teve elementos de violência sexual? Quantas e quantas mulheres foram violentadas, abusadas e usadas para o apetite sexual dos homens brancos? 

Invisible works

No terceiro caso, vamos recorrer aos ensinamentos de Arlene Kaplan Daniels (1930-2012), norte-americana e criadora do conceito “invisible works”. Neste caso, a questão vale para o mundo inteiro. Tenho certeza que, várias vezes, você se deparou com este caso no seu cotidiano, o caso do “trabalho invisível” ou o “trabalhador invisível”. Quantas vezes o trabalho doméstico, das mães, por exemplo, é invisível? Quantas vezes alguém indagado sobre o que a mãe faz, responde:

_ “Minha mãe não trabalha, é ‘do lar’”.

A mãe não trabalha! Esta é uma das mais incríveis invisibilidades sociais. A mãe não trabalha! Cuida dos filhos, mantém a casa em ordem, faz a comida, lava a roupa e … não trabalha.

A invisibilidade social é um tema para ser refletido. Tornar visíveis nossas mazelas é fundamental para uma sociedade melhor. Precisamos enxergar isto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Sociologia
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