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Marx e o Capital

  • por em 27 de abril de 2021

Nascido na Alemanha em 1818, Karl Marx tornou-se um dos pensadores mais importantes e influentes de toda a história. Suas ideias transformaram o mundo de tal forma, que nunca mais foi possível compreender a sociedade, a política, a economia e a história distante de seus questionamentos e críticas.

Os estudos de Marx devem ser os mais citados, mas ao mesmo tempo pouco compreendidos pelo homem contemporâneo. Esse entendimento limitado, politizado e descontextualizado da teoria marxiana denigrem a sua enorme importância, tanto sociológica, quanto filosófica, para o mundo atual. A verdade é que suas frases e ideias são mais citadas nas rodas de conversa, nos ambientes informais das universidades e até nas homilias das catedrais, do que propriamente conhecidas e entendidas. Sua barba longa e grisalha é facilmente reconhecida, mas suas ideias revolucionárias e profundamente humanas, raramente compreendidas.

Sua maior obra, “O Capital”, trata do retrato mais preciso do nascimento do capitalismo na Inglaterra do final do século XIX, da exploração do trabalhador e dos problemas sociais gerados por ele. Devido a isso, é possível compreender o radicalismo de Marx, que nasce das atrocidades e situação radicalmente desumana à qual os trabalhadores estavam submetidos em seu contexto histórico.

O capitalismo do período de Marx seria inaceitável e extremamente cruel para a sociedade de hoje. Não havia leis trabalhistas, férias e muito menos sindicatos. Os trabalhadores tinham uma jornada de trabalho que girava em torno de 14 a 18 horas de segunda a domingo (sendo comum crianças trabalharem 12 horas por dia), em um ambiente insalubre e sem qualquer controle de segurança. Era normal os operários morrerem em acidentes de trabalho, de doenças geradas pelo ambiente laboral ou de exaustão.

Trabalho infantil e de mulheres em minas de carvão na Inglaterra: sem equipamentos de segurança, ambiente insalubre e mais de 12 horas de trabalho por dia.

Neste contexto, o capitalismo existia em sua forma mais pura. A busca pelo lucro, o maior possível, justificava qualquer ação por parte das indústrias. Aqueles que não eram os donos dos meios de produção, estavam condenados a uma existência miserável, próxima da escravidão.

É dessa contradição que nasce a luta de classes: ou se é o dono dos meios de produção (burguesia) ou se vende a força de trabalho (proletariado). Essa relação explorador versus explorado, no sistema capitalista, tende a permanecer, pois é a fonte da riqueza e poder da burguesia. É nesse contexto que Marx formula o conceito de ideologia, entendido como o mecanismo utilizado para a perpetuação da exploração, por meio do controle à consciência. Por meio dela, o trabalhador vive em uma constante alienação, o que impede a tomada de consciência de que a realidade é resultado das escolhas humanas e, portanto, que é possível transformá-la.

Para o ele, em um sistema movido pelo dinheiro, pelo lucro, as pessoas e se tornam “coisas”, ou seja, são “reificadas”. Quando o ser humano deixa de ser humano, tornando-se apenas “coisa”, ele perde a sua dignidade. Ele não merece respeito, dignidade ou esperança. Ao contrário, pode ser tratada como um objeto que serve a algum fim.

Nesse ambiente de extremos, Marx acreditava que a busca incessante do lucro e a luta de classes, provocariam a destruição do próprio capitalismo – dialética marxiana, por meio da revolução do proletariado. E o resultado seria a transformação da realidade material, o nascimento do comunismo, em que não haveria propriedade privada dos meios de produção, portanto, não haveria exploração, e muito menos a alienação do homem. Para Marx, o fim da propriedade privada acabaria com as guerras, a inveja e as diferenças entre homens.

Para Marx, a exploração do trabalho pelo capitalismo seria a sua destruição pela revolução do proletariado.

O que Marx não contava era com a capacidade do capitalismo de se reinventar, garantindo que a ruptura não acontecesse. É importante compreender que, nunca houve um sistema socialista ou comunista de acordo com a Teoria Marxiana. A Revolução Russa, Cubana, Chinesa, Coreia do Norte e todas as outras tentativas, mais ou menos cruéis, nunca foram o que Marx pensou. Há uma diferença enorme entre as ideias de Marx e a realidade histórica de todos essas tentativas.

Propaganda chinesa mostrando Marx, Lenin e Mao Tse-tung lado a lado. Na verdade, Marx nunca apoiou a criação de regimes totalitários, como da Rússia, China ou Coreia do Norte.

Podemos deduzir que Marx nunca desejou a criação de regimes totalitários como o da União Soviética, apesar de acreditar na necessidade de uma ditadura do proletariado, na primeira fase da revolução, para minimizar as diferenças sociais e proporcionar o bem-estar coletivo.

O seu objetivo último foi o de pensar um sistema econômico em que os homens pudessem ser felizes, tendo todas as suas necessidades atendidas, e não fosse reduzido a apenas um objeto, uma coisa (reificação), uma engrenagem na máquina capitalista.

Julgar o pensamento de Marx, utilizando como referencial as realidade vividas no século XX, principalmente pelos crimes e atrocidades ocorridos nas falidas tentativas de implantar o socialismo é o mesmo que julgar Jesus por atos criminosos cometidos por alguns cristãos, ou julgar Maomé pelos atos criminosos cometidos por alguns mulçumanos, ou julgar um pai pelos atos criminosos cometidos pelos filhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Sociologia
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